segunda-feira, 23 de março de 2009

Anatomia de uma punhalada


Ainda ontem nos deitámos como um casal feliz. Tu com os teus boxers largos comprados no Continente, às riscas amarelas e vermelhas e eu com a minha camisa de noite, transparente de gasta e com odor a naftalina. Dormimos agarrados, tu com o teu ronco ensurdecedor e eu com a minha respiração asmática, levantámo-nos a meio da noite para dar comida ao caniche que estava fechado na cozinha e voltámos a dormir porque sábado era dia de ir para as filas do Ikea comprar prateleiras e tapetes. A tua roupa interior, o teu ressonar e a tua falta de gosto para os tapetes não me incomodavam, porque eu gostava de ti. Por isso é que não percebi porque é que hoje, quando cheguei a casa, senti a ponta aguçada da lâmina a trespassar-me as costas, as tuas palavras cortantes de traição e eu a esvair-me em mil desilusões, em ingénuos enganos.

Rompeste-me as veias. Não me consigo aquecer. Estou tão gélida como naquela noite de Dezembro em que me aqueceste os pés com as franjinhas da manta, em que disseste que íamos mudar de casa no Verão, que íamos ter uma cozinha com armários novos, porque estes já estão tão velhos e poeirentos que eu mato-me das cruzes para os limpar. O sangue jorra do meu corpo como espirrava dos teus olhos inebriados nas noites em que chegavas de manhã e eu esperava por ti na cama fria, com a minha camisa de noite sedenta de ti. E mesmo assim, enlouquecia pelos teus olhos perturbados, pelo teu bafo a conhaque, queria abraçar-te e dizer-te que no Verão íamos para a casa nova, mas tu evitavas-me, saciado de desejo. “Aqueles meus colegas do trabalho embebedaram-me outra vez”. E eu acreditava nos teus olhos, apaixonava-me pela sua inquietude.

Trespassaste-me a traqueia. Não consigo falar. Emudeci como naquela tarde em que desconfiei de ti pela primeira vez. Quando passámos de carro por ela, tu muito vermelho e desengonçado, ela a esconder a cara com os cabelos castanhos que fugiam ao vento. “Quem era?”. “Era a Isabel, lá da rua. Já não a via há muito tempo”. Nunca gostei da Isabel. A forma como te olhava quando passeávamos o cão, os sorrisos cúmplices, as recordações comuns de noites luxuriantes de cambalhotas e gemidos. E a mim já não me tocas há uma semana. Estás cansado, fartas-te de trabalhar. E eu amo-te por seres um homem trabalhador, que paga as prestações da casa e do Toyota, que nunca faltou ao condomínio e que me dá uma prenda todos os dia 17 de cada mês, o dia em que nos conhecemos naquela festa em casa do Alberto e os teus lábios perseguiram os meus como agora anseiam pelos cabelos castanhos da Isabel.

Furaste-me o estômago. Não consigo comer. Estou sem apetite como nos jantares em que não aparecias porque tinhas uma reunião no Porto, uma conferência em Espanha. Às vezes, avisavas tarde. “Querida, este fim-de-semana vou trabalhar”. E eu tirava da mesa os pratos que a tua tia Isaura nos tinha oferecido, guardava a tua comida num tapperware para que pudesses comê-la quentinha quando chegasses na segunda-feira. Mas chegavas sem fome, a boca conspurcada de prazeres carnais, a barriga cheia de pedaços de virilhas perfumados e a sede satisfeita por orgasmos suculentos. E eu continuava a querer-te porque tinha fome de ti, porque eras a única presa na minha cadeia alimentar, a única vitamina que me dava forças para aguentar. E nem com os calmantes a carregarem-me sobre as pálpebras parava de olhar para ti e já só pensava em fazer-te aquele prato que adoravas e que, nos últimos tempos, tinha funcionado como a única forma de me elogiares.
Esvaziaste-me os pulmões. Não consigo respirar. Sufoco como naquelas brincadeiras na Fonte da Telha, em que mandávamos água à cara um do outro só para ter a oportunidade de, logo a seguir, lhe podermos sentir o sabor em beijos salgados. Sufoco como quando me dizias que não querias ser igual ao teu pai, que te ia pôr à escola antes de ir buscar a amante ao emprego. Ficava sem ar ao ver as tuas bochechas de menino indefeso, a tua íris assustada e confortava-te no meu colo, dizendo que junto a mim não irias precisar de outro colo, que poderias chorar no meu sempre que quisesses. E rir também. Mas tu não és diferente do teu pai. Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita. E tu só te endireitas com o conhaque e com os cabelos da Isabel.

Arrancaste-me o coração. Não consigo amar. Não te consigo amar a ti nem ao André, que tentou todo este tempo conquistar-me, que me agarrou na aula de dança e deixou os seus lábios a poucos centímetros dos meus. Eu afastei-o. Não quis saber do seu ritmo, do seu romantismo e do seu toque de anca a dançar o chá-chá-chá. Gostava de ti porque não tinhas jeito para nada, senão o teu jeito, gracioso de desajeitado, que com um só movimento era capaz de me deitar ao chão, de acreditar que tinhas de trabalhar, que já não vias a Isabel há muito tempo, que o meu coração ainda latejava.

Puxo a lâmina suavemente, para sentir o metal a remexer a minha carne apodrecida, as vísceras furiosas, as térmitas que me devoram a medula. Pego no meu lenço de veludo vermelho áspero de lágrimas secas e passo-o pelo metal, limpando o sangue que já seca como os dias vividos ao teu lado. O sangue estanca sempre primeiro do que as recordações. Nas minhas mãos, a ponta do sabre vibra excitada, humedecida. Sabe que não há mãos que o manejem melhor dos que as de uma mulher ferida.

1 comentário:

Filipe Braga disse...

maravilhoso, varela. maravilhoso mesmo.
o amor desamado, com ou sem caravana na caparica, invade-nos as entranhas sem pedir licença, cancro pútrido e corrosivo, não escolhendo classes ou idades. desamado, desalmado e sobretudo desarmado, porque não há nada que nos tire mais a vontade de vingança que o amor de sentido único.