
Já não andava de táxi há muito tempo. Normalmente, evito andar de táxi para poupar uns euros. Submeto-me a caminhadas penosas pelas calçadas da Mouraria, a esperas agoniantes pelos autocarros nocturnos, a conduções turvas acompanhadas por gotas frias de suor quando avisto uma brigada de balão em punho. Mas, por vezes esqueço-me que nos táxis não se paga apenas a deslocação. Há viagens que se transformam em lições de histórias, em hinos ao saudosismo e em incursões no tempo. Relato-vos pequenos excertos de conversas que tive com três taxistas na última semana, exemplos perfeitos da heterogeneidade reinante naquele mundo motorizado.
Taxista 1
Aeroporto - Graça
Natural da Quinta do Conde
- Tenho amigos que são doutores e engenheiros e ganham 1200 euros. Compram um fato ficam logo sem dinheiro. E o senhor o que faz?
- Sou jornalista. Venho agora de Madrid, fui entrevistar o Futre...
- Leio com cada coisa nos jornais. Só corrupção, só corrupção...Nem sei se acredite...
- Acredite nos jornais. Não acredite é nos corruptos.
- Jornalista...Então está bem?! Não está a sofrer com a crise.
- Não, nada. Ganho 700 euros.
- 700 euros. Então se comprar um fato...
- Não uso fatos.
- Mas se é jornalista não pode usar roupa da feira. Tem de ter um fato.
- Estas calças que tenho são da feira.
- Não pode ser. Isto são só corruptos. A vossa geração está toda na miséria. Tenho um vizinho que foi do MFA que diz que se tivesse hoje a vossa idade, já tinha ido para a rua. Meter bombas no gabinete desses corruptos...
- Assim, se calhar, já podia comprar um fato....
Taxista 2
Saldanha-Graça
Natural de Arganil
- O 25 de Abril é uma farsa. Eu vivia muito melhor antes. E metem-se com essas coisas da liberdade. A única liberdade que não havia era política...
- E a liberdade de expressão?
- O Sr. acha que tem liberdade de expressão agora?
- Não, mas acho que tenho mais do que naquela altura.
- Se calhar tem a mesma e não sabe. Olhe aqui mora um "chofer" da minha terra, no 98 da Praia da Vitória. O Tó Fialho. A filha é a Joana que casou com o Joaquim, do táxi 308, que é alentejano. Onde é que o senhor vive?
- Cresci ali no Bairro Lopes, na av. Afonso III.
- Nessa Avenida vivem 3 taxistas. O Manel, do táxi 76, vive no 3º andar do nº49 da Avenida, casou com a Cecília que é duma aldeia ao pé da minha. E também vive o do 301, em cima da churrasqueira.
- Bem...você só pode estar a gozar comigo. Tem uma grande memória!
- É do que é que isso me vale?
- Sabe que o meu avô era taxista e ia a essa churrasqueira...Morreu há dez anos e reformou-se há 20. Não o deve conhecer.
- Como se chamava?
- José Vicente
- O Sr. Vicente, do Olho Marinho. Um senhor provinciano, da aldeia, redondinho, baixinho, de ombros largos. Conheço muito bem. Ia para o café do Pernadas desabafar. Olha o neto do Sr. Vicente...
- Incrível. Como é que o sr. se lembra de toda a gente?
- E do que é que isso me serve? Para onde é que é mesmo?
- Para a rua da Bela Vista à Graça.
- Ah. Aí mora o Raúl, carro 33, o meu é o 34. Vive na ali na Rua de Sapadores, o genro também é da praça e vive no nº79 dos Barbadinhos. Chegou a engravidar a Isabel, de Arganil, que também vive aqui na do Sol à Graça, nº72, e que depois casou com o filho do meu patrão, que conduz um Mercedes igual a este, o 40, e que vive em Alvalade ao lado do....
- Chefe, pode parar. Chegámos.
- O Sr. vive ali no 98, no prédio côr-de-rosa.
- O quê? Como é que sabe?
- Já cá o trouxe. Não se lembra?
- O Sr. tem uma grande memória....
Taxista 3
Bairro Alto - Pç de Espanha - Alvalade - Graça
Natural de Alfama
- Isto hoje é muito diferente. Quando comecei nem havia mulheres a sair à noite.
- Já viu a sua sorte. Agora tem duas no banco de trás.
- Sorte tem o senhor. Eu tinha de ir às casas de putas na Praça da Alegria.
(pára na Praça de Espanha)
- Olha ali vive o Eusébio. Grande Eusébio. Vejo-o às vezes aí com cada bebedeira.
- A sério?
- Uff. E o Bento? Quantas vezes é que eu levava o Bento aí a casas de meninas, era putas ao colo e o caralho. Loucura do caralho...
- Olhe que ainda tem uma menina no banco de trás
- E o sr. é do Benfica?
- Claro.
- E também festejou a vitória contra o Leixões?
- Claro. Sempre.
- Então, não é do Benfica. Do Benfica éramos nós, que íamos para o estádio da manhã com as panelas e o vinho e o caralho. Apostávamos se o Benfica ia ganhar por 3 ou 4, não era se ia ganhar. E era contra o Ajax e o Barcelona, e o caralho que o foda. O Leixões e o Marítimo? Essas merdas estavam nas distritais, caralho. Isso é que era o meu Benfica!
- Devia ser um ambiente do caralho
- Opa, aquilo era uma maluquice! Quando era golo, lá no terceiro anel, já dava por mim com uma ou duas malucas em cima de mim, tudo maluco e o caralho. Xiiii...Jesus!Tu nem imaginas, pá.
- Gostava de ter visto.
- O mais maluco era o Vítor Baptista. Era pescador, de Setúbal. Eu estava no estádio quando perdeu o brinco de diamantes contra o Sporting. Foi uma loucura, pá. Podia ter sido melhor que o Eusébio. Meteu-se na droga, foi preso, depois foi coveiro e acabou na merda. Cheguei a ir com o Bento à prisão dar prendas ao Baptista, pá. O Bento a chorar, e o caralho. Você devia escrever um livro sobre o Vítor Batista.
- Deve ser uma boa história. Olhe, chegámos. Como é que se chama?
- Aires Vicente, de Alfama.
- Olhe, também sou Vicente. Tiago.
- És cá dos meus. Vicente e do Benfica. Isto é do caralho. Olha...não te esqueças do Vítor Baptista que era pescador. Nasceu na merda e morreu na merda. Foi do caralho!