terça-feira, 10 de março de 2009

Carta de curso - Grau de licenciado


Ao fim de quatro anos ganhei coragem para ir buscá-lo. Aquele papel que não serve para nada. O diploma, carinhosamente chamado pela geração de 70 de canudo, o passaporte da classe média para uma vida feliz e estável.


Este papel não me fez feliz. Não me encontro estável.


Tem um aspecto tosco e vulgar. Nada que se compare com o cilindro de inox que o meu pai guardava atrás da cadeira da sala de jantar, uma cadeira inútil, que só servia de base para a árvore de Natal nos raros natais em que precisávamos de uma árvore. Nesse canto inóspito, o diploma do meu pai compartia o piso poeirento com umas VHS porno e com as minhas fraldas de pano guardadas como uma relíquia em sacos de plástico, não fosse eu ter a ideia de ter um filho em idade precoce e não possuir recursos para lhe filtrar as urinas com Dodot.


Agora que penso bem e já não uso fraldas, acho que o meu pai também já não dava muito valor ao cilindro. Diziam-me que sim; que aquela era a finalidade da minha existência, que sem aquilo ia ser como o pai do Carlos Alberto lá da primária, que vivia numa barraca em frente à escola, estava sempre bêbedo e, pior que tudo, era preto como tição. Como, na época, não queria ser preto e viver numa cabana, pus-me a ler as aventuras dos "Cinco" e dos "Sete", a memorizar a tabuada e a empinar o nome dos rios e as ligações ferroviárias portuguesas.


Continuei -, o D.Afonso III é o "Bolonhês", a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado de hipotenusa, Diogo Cão foi o primeiro a dobrar o Cabo Bojador, Pessoa bebeu absinto e criou heterónimos, o Descartes pensou que se pensasse existia mas errou, o Marx criou a luta de classes mas os russos perceberam-no mal e meteram as classes na Sibéria, o Mcluhan enfiou-nos numa aldeia global, o que levou o Durkheim a ponderar o suicídio...21 anos nisto. Por causa deste maldito papel. "Eu, Leopoldo Guimarães, Reitor da Universidade Nova de Lisboa, faço saber que Varela o Gigante concluiu o curso de licenciatura em C...". Leopoldo, vai-te mas é foder! Um papel tosco e vulgar, escrito em Times New Roman, nem uma letra de estilo francês, desenhada e ornamentada pelo pulso fino e sensual da puta da tua secretária. Francamente, Leopoldo!


Nem sequer senti a mais pequena emoção ao tocar-lhe. Nem um sorriso, uma ponta de orgulho, nada. Subi e desci as escadas da universidade, esperando em vão que a nostalgia e o saudosismo me invadissem a alma e que, de repente, começasse a beijar o malfadado papel com todas as forças que tinha. Nada. Espreitei as salas, percorri corredores, cruzei-me com professores. Nada. Finalmente, no verso do diploma encontrei algo que me fez estremecer de raiva "Emolumentos: 91 euros. Conferido por Teresa". Paguei quase 20 contos por uma assinatura de uma tal Teresa que nem teve coragem para revelar-me o apelido. Teve medo que eu lhe devolvesse o papel, de certeza. E assinou com uma caneta BIC. Cabra.


A Teresa não imagina os suores frios que me escorreram pela testa nas vésperas de exames. A Teresa está-se a borrifar para que eu tenha ficado em casa a ler manuais de ciências da Natureza enquanto os meus amigos iniciavam a sua actividade sexual. A Teresa nem sequer sonha que durante 21 anos eu ambicionei aquele pedaço de papel que ela assinou com notório desprezo com a sua caneta BIC, ao estilo de produção industrial em série. E ainda me cobrou quase 20 contos.


Por isso é que vou chegar a casa e meter uma cadeira a um canto. Vou arranjar VHS porno e fraldas de pano e esconder o meu diploma no meio do pó. Nunca mais lutarei por um papel, fá-lo-ei por pessoas. Pepeís há muitos, Leopoldo e Teresa. E só preciso dos higiénicos.

6 comentários:

SPES disse...

Li com atencao o teu post como aliás faco sempre.
Compreendo aquilo que dizes e partilho contigo o sentimento de frustracao que, no meu caso, se arrastou por mais 2 anos devido a uma desistencia algo prematura mas tao necessária!

De qualquer forma o diploma (que tambem ainda nao recolhi), embora assinado por uma "cabra" que desconhece a nossa história de vida, prova que conseguiste, que acabaste e que, apesar de todas as adversidades, livraste-te dessa enfadonha faculdade que nos viu passar mas que nos marcou e que nao "passou" apenas por nós.

Apesar de por vezes gostarmos de pensar que a motivacao deveria vir do exterior, das pessoas que nos rodeiam, por ser mais fácil e por representar um reconhecimento, o verdadeiro reconhecimento deve vir de nós próprios e pronto...

Agora terás a tua cadeira onde os teus filhos poderao ver o diploma cheio de pó de um curso que pouco mais acrescentou do que a nossa amizade =)

alma vogler disse...

sim Sarinha, mas 90 euros!!!!!

SPES disse...

É até ao dia em que as pessoas deixem de pedir os diplomas porque, afinal, só mesmo para por atrás da cadeira com filmes porno e fraldas de pano!
;)

Varela, o Gigante disse...

Eu percebo, Sara. Acho que voltaria a fazer tudo na mesma porque assim tive oportunidade de conhecer-vos. Senti-me um pouco decepcionado por ter recebido o diploma e não ter sentido nada. Pensei que ia sentir alguma coisa porque toda a vida me incentivaram para acabar o curso e não consegui ter emoção. Acho que sou academicamente frígido. E enerva-me a burocracia, o facto de serem duas pessoas que nunca vi na vida a assinarem um papel que eu cheguei a pensar ser tão importante. Só isso. De resto, está tudo bem :)

Clau disse...

Eu também sou academicamente frígida. Felizmente, só mesmo academicamente.

Varela, és mesmo grande pá! Cada post, um momento de leitura sem igual e sempre com um sentimento de empatia brutal.

Beijos

ps - 20 contos É BUÉ

Tori O. disse...

Agora é que vi a assinatura a BIC.
O meu desprezo foi tal que quando o fui buscar nem me dignei a tira-lo completamente do envelope. Espreitei a frente e voltei a guardar.
Ao ler o teu post a raiva finalmente surgiu.
who da fuck is Teresa????