...Aqui fica uma coisa interessante que descobri através de outro Blog:
"Estou cansado!
Estou cansado e ainda mais enfadonhado, rancoroso quase, só não vou explodir porque não sei como! Cansado da «vidinha» que se leva a cabo como um figurante sem oportunidades neste filme que passa aqui e agora nesta cidade que é Lisboa. Aborrece-me de morte o tédio instalado na vivência de um emprego das nove às seis, fico doido de pensar nas montanhas que é preciso mover para mudar algo para transformar esta cidade no *Cais de Aventura*que se esconde no potencial de cada esquina, na potência de cada um dos lisboetas, dos portugueses, dos seus visitantes. Estou farto de me perder, no xadrez das ruas e ruelas, de falhar ou chegar tarde aos eventos, aos verdadeiros acontecimentos que enchem a cidade e todo o seu ego como uma maré avassaladora. Lisboa é grande, implacável e chega de perder oportunidades e culpar uns e outros ou talvez todos. Chega de «perdidas»!"
Este é o manifesto do MAL - Movimento Acorda Lisboa que podem descobrir através do link http://movimentoacordalisboa.com/
Aqui encontram informacao sobre o que de melhor se faz por terras Lusas, embora às vezes também inclua algumas sugestoes menos bem conseguidas =).
Um blog a visitar...I guess!
quarta-feira, 11 de março de 2009
terça-feira, 10 de março de 2009
Carta de curso - Grau de licenciado

Ao fim de quatro anos ganhei coragem para ir buscá-lo. Aquele papel que não serve para nada. O diploma, carinhosamente chamado pela geração de 70 de canudo, o passaporte da classe média para uma vida feliz e estável.
Este papel não me fez feliz. Não me encontro estável.
Tem um aspecto tosco e vulgar. Nada que se compare com o cilindro de inox que o meu pai guardava atrás da cadeira da sala de jantar, uma cadeira inútil, que só servia de base para a árvore de Natal nos raros natais em que precisávamos de uma árvore. Nesse canto inóspito, o diploma do meu pai compartia o piso poeirento com umas VHS porno e com as minhas fraldas de pano guardadas como uma relíquia em sacos de plástico, não fosse eu ter a ideia de ter um filho em idade precoce e não possuir recursos para lhe filtrar as urinas com Dodot.
Agora que penso bem e já não uso fraldas, acho que o meu pai também já não dava muito valor ao cilindro. Diziam-me que sim; que aquela era a finalidade da minha existência, que sem aquilo ia ser como o pai do Carlos Alberto lá da primária, que vivia numa barraca em frente à escola, estava sempre bêbedo e, pior que tudo, era preto como tição. Como, na época, não queria ser preto e viver numa cabana, pus-me a ler as aventuras dos "Cinco" e dos "Sete", a memorizar a tabuada e a empinar o nome dos rios e as ligações ferroviárias portuguesas.
Continuei -, o D.Afonso III é o "Bolonhês", a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado de hipotenusa, Diogo Cão foi o primeiro a dobrar o Cabo Bojador, Pessoa bebeu absinto e criou heterónimos, o Descartes pensou que se pensasse existia mas errou, o Marx criou a luta de classes mas os russos perceberam-no mal e meteram as classes na Sibéria, o Mcluhan enfiou-nos numa aldeia global, o que levou o Durkheim a ponderar o suicídio...21 anos nisto. Por causa deste maldito papel. "Eu, Leopoldo Guimarães, Reitor da Universidade Nova de Lisboa, faço saber que Varela o Gigante concluiu o curso de licenciatura em C...". Leopoldo, vai-te mas é foder! Um papel tosco e vulgar, escrito em Times New Roman, nem uma letra de estilo francês, desenhada e ornamentada pelo pulso fino e sensual da puta da tua secretária. Francamente, Leopoldo!
Nem sequer senti a mais pequena emoção ao tocar-lhe. Nem um sorriso, uma ponta de orgulho, nada. Subi e desci as escadas da universidade, esperando em vão que a nostalgia e o saudosismo me invadissem a alma e que, de repente, começasse a beijar o malfadado papel com todas as forças que tinha. Nada. Espreitei as salas, percorri corredores, cruzei-me com professores. Nada. Finalmente, no verso do diploma encontrei algo que me fez estremecer de raiva "Emolumentos: 91 euros. Conferido por Teresa". Paguei quase 20 contos por uma assinatura de uma tal Teresa que nem teve coragem para revelar-me o apelido. Teve medo que eu lhe devolvesse o papel, de certeza. E assinou com uma caneta BIC. Cabra.
A Teresa não imagina os suores frios que me escorreram pela testa nas vésperas de exames. A Teresa está-se a borrifar para que eu tenha ficado em casa a ler manuais de ciências da Natureza enquanto os meus amigos iniciavam a sua actividade sexual. A Teresa nem sequer sonha que durante 21 anos eu ambicionei aquele pedaço de papel que ela assinou com notório desprezo com a sua caneta BIC, ao estilo de produção industrial em série. E ainda me cobrou quase 20 contos.
Por isso é que vou chegar a casa e meter uma cadeira a um canto. Vou arranjar VHS porno e fraldas de pano e esconder o meu diploma no meio do pó. Nunca mais lutarei por um papel, fá-lo-ei por pessoas. Pepeís há muitos, Leopoldo e Teresa. E só preciso dos higiénicos.
política nem sempre dá azia
para quem tenha paciência, esta entrevista do medina carreira na sic notícias é qualquer coisa ao lado do estado geral a que chegámos.
falam dele como visionário, desassombrado ou destemido.
eu limito-me a ver com maus olhos uma "democracia" que lá aceita uma entrevista com um ou outro velho corajoso (trad. não tem absolutamente nada a perder) a falar das coisas como elas são.
por mim, salte-se da ideia presidencialista directamente para o motim sem outro fim que não seja um perlimpimpim nesta terra morna, extra-light e sem adição de sal.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Parabéns colectivo

Tinha 18 anos e os horizontes encurtados por dois farrapos de cabelos amarelos que me picavam a vista. Acreditava que o azul e o creme eram as únicas cores que podiam combinar, que o largo do meu bairro era a praça do Mundo, que a realidade só podia ser vista a partir da mentalidade europeia e caucasiana. Que os homens deviam falar de coisas de homens só com homens e que as mulheres não falavam de homens, só falavam de coisas de mulheres com mulheres. Depois conheci-vos.
Exclamei de admiração quando vi que uma camisola do Super-Homem, uma saia por cima dos jeans e umas calças de linho podiam conviver à mesma mesa. Montemor não é no Alentejo? Da Moita a Lisboa são 9 horas de distância e tens de apanhar todos os transportes possíveis e imaginários? Em Odemira é que se vive o 25 de Abril? E aí começaram a mudar-me. Disseram-me que positivista não era o antónimo de pessimista, mas uma coisa má, ignorante. Que não se pode escrever sobre a história da II Guerra Mundial num exame de Métodos Quantitativos. Parece que é para fazer contas. Que podes frequentar o Kremlin e o Rockline ao mesmo tempo. Adaptares-te a todos os ambientes com a mesma classe. Transformava-me.
Explicaram-me que não era preciso ir a todas as aulas para passar. Que uma cerveja na mesa ou um ás de copas na mão podiam contribuir mais para o meu crescimento intelectual. Mostraram-me que era possível beijar sem gostar, mas que isso representa uma sensação insignificante quando comparada ao que sentes quando gostas sem beijar. Que podes ser criança para sempre e acreditar em fadas e duendes. Em gatas animadas. E a metamorfose continuava.
Ah! Afinal as mulheres falam de sexo?! Têm motivos? Traem, gritam e amam tanto ou mais do que nós? Explicam-me que são todas diferentes. Eu gosto de viver o momento, fascina-me a atracção, a chama num piscar de olhos. Se me apaixono, choro. Se não me apaixono, rio-me. Eu não sou assim. Garanhão que se mete comigo leva um estalo ou pego-lhe fogo. Procuro o homem perfeito, que se encaixe nas minhas formas como as costas recortadas da América do Sul e de África, feitas para estar juntas e afastadas pelo acaso da Natureza. Eu não sou uma coisa nem outra. Gosto de homens altos, fortes, que me protejam. Mas sensíveis e delicados. Inteligentes. Sofro para dentro mas tenho a força de uma égua selvagem. O amor é fodido. Mas eu sou mais forte do que ele. E esta variedade completava-me.
Disseram-me, podes partir. Que a amizade não tem distâncias. Disseram-me, visita-me tens sempre a porta aberta. Que és meu irmão, meu companheiro, meu camarada. E eu já não tinha os farrapos amarelos, via a mil cores, o Mundo era o largo do meu bairro e era frequentado por povos de todas as cores e de todas as raças que falavam línguas que eu não percebia, como não percebia a vossa quando vos conheci. E agora já a falo sem erros. Ensinaram-me a mudar, que é uma das maiores virtudes do ser humano. E para melhor. Mostraram-me que mudam-se os tempos, as vontades e as mentalidades...mas que as verdadeiras amizades são imunes ao corrosivo passar do tempo.
Parabéns Clau, Vanessa e Anita. Obrigado a toda a coiotada.
Exclamei de admiração quando vi que uma camisola do Super-Homem, uma saia por cima dos jeans e umas calças de linho podiam conviver à mesma mesa. Montemor não é no Alentejo? Da Moita a Lisboa são 9 horas de distância e tens de apanhar todos os transportes possíveis e imaginários? Em Odemira é que se vive o 25 de Abril? E aí começaram a mudar-me. Disseram-me que positivista não era o antónimo de pessimista, mas uma coisa má, ignorante. Que não se pode escrever sobre a história da II Guerra Mundial num exame de Métodos Quantitativos. Parece que é para fazer contas. Que podes frequentar o Kremlin e o Rockline ao mesmo tempo. Adaptares-te a todos os ambientes com a mesma classe. Transformava-me.
Explicaram-me que não era preciso ir a todas as aulas para passar. Que uma cerveja na mesa ou um ás de copas na mão podiam contribuir mais para o meu crescimento intelectual. Mostraram-me que era possível beijar sem gostar, mas que isso representa uma sensação insignificante quando comparada ao que sentes quando gostas sem beijar. Que podes ser criança para sempre e acreditar em fadas e duendes. Em gatas animadas. E a metamorfose continuava.
Ah! Afinal as mulheres falam de sexo?! Têm motivos? Traem, gritam e amam tanto ou mais do que nós? Explicam-me que são todas diferentes. Eu gosto de viver o momento, fascina-me a atracção, a chama num piscar de olhos. Se me apaixono, choro. Se não me apaixono, rio-me. Eu não sou assim. Garanhão que se mete comigo leva um estalo ou pego-lhe fogo. Procuro o homem perfeito, que se encaixe nas minhas formas como as costas recortadas da América do Sul e de África, feitas para estar juntas e afastadas pelo acaso da Natureza. Eu não sou uma coisa nem outra. Gosto de homens altos, fortes, que me protejam. Mas sensíveis e delicados. Inteligentes. Sofro para dentro mas tenho a força de uma égua selvagem. O amor é fodido. Mas eu sou mais forte do que ele. E esta variedade completava-me.
Disseram-me, podes partir. Que a amizade não tem distâncias. Disseram-me, visita-me tens sempre a porta aberta. Que és meu irmão, meu companheiro, meu camarada. E eu já não tinha os farrapos amarelos, via a mil cores, o Mundo era o largo do meu bairro e era frequentado por povos de todas as cores e de todas as raças que falavam línguas que eu não percebia, como não percebia a vossa quando vos conheci. E agora já a falo sem erros. Ensinaram-me a mudar, que é uma das maiores virtudes do ser humano. E para melhor. Mostraram-me que mudam-se os tempos, as vontades e as mentalidades...mas que as verdadeiras amizades são imunes ao corrosivo passar do tempo.
Parabéns Clau, Vanessa e Anita. Obrigado a toda a coiotada.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Taxistas

Já não andava de táxi há muito tempo. Normalmente, evito andar de táxi para poupar uns euros. Submeto-me a caminhadas penosas pelas calçadas da Mouraria, a esperas agoniantes pelos autocarros nocturnos, a conduções turvas acompanhadas por gotas frias de suor quando avisto uma brigada de balão em punho. Mas, por vezes esqueço-me que nos táxis não se paga apenas a deslocação. Há viagens que se transformam em lições de histórias, em hinos ao saudosismo e em incursões no tempo. Relato-vos pequenos excertos de conversas que tive com três taxistas na última semana, exemplos perfeitos da heterogeneidade reinante naquele mundo motorizado.
Taxista 1
Aeroporto - Graça
Natural da Quinta do Conde
- Tenho amigos que são doutores e engenheiros e ganham 1200 euros. Compram um fato ficam logo sem dinheiro. E o senhor o que faz?
- Sou jornalista. Venho agora de Madrid, fui entrevistar o Futre...
- Leio com cada coisa nos jornais. Só corrupção, só corrupção...Nem sei se acredite...
- Acredite nos jornais. Não acredite é nos corruptos.
- Jornalista...Então está bem?! Não está a sofrer com a crise.
- Não, nada. Ganho 700 euros.
- 700 euros. Então se comprar um fato...
- Não uso fatos.
- Mas se é jornalista não pode usar roupa da feira. Tem de ter um fato.
- Estas calças que tenho são da feira.
- Não pode ser. Isto são só corruptos. A vossa geração está toda na miséria. Tenho um vizinho que foi do MFA que diz que se tivesse hoje a vossa idade, já tinha ido para a rua. Meter bombas no gabinete desses corruptos...
- Assim, se calhar, já podia comprar um fato....
Taxista 2
Saldanha-Graça
Natural de Arganil
- O 25 de Abril é uma farsa. Eu vivia muito melhor antes. E metem-se com essas coisas da liberdade. A única liberdade que não havia era política...
- E a liberdade de expressão?
- O Sr. acha que tem liberdade de expressão agora?
- Não, mas acho que tenho mais do que naquela altura.
- Se calhar tem a mesma e não sabe. Olhe aqui mora um "chofer" da minha terra, no 98 da Praia da Vitória. O Tó Fialho. A filha é a Joana que casou com o Joaquim, do táxi 308, que é alentejano. Onde é que o senhor vive?
- Cresci ali no Bairro Lopes, na av. Afonso III.
- Nessa Avenida vivem 3 taxistas. O Manel, do táxi 76, vive no 3º andar do nº49 da Avenida, casou com a Cecília que é duma aldeia ao pé da minha. E também vive o do 301, em cima da churrasqueira.
- Bem...você só pode estar a gozar comigo. Tem uma grande memória!
- É do que é que isso me vale?
- Sabe que o meu avô era taxista e ia a essa churrasqueira...Morreu há dez anos e reformou-se há 20. Não o deve conhecer.
- Como se chamava?
- José Vicente
- O Sr. Vicente, do Olho Marinho. Um senhor provinciano, da aldeia, redondinho, baixinho, de ombros largos. Conheço muito bem. Ia para o café do Pernadas desabafar. Olha o neto do Sr. Vicente...
- Incrível. Como é que o sr. se lembra de toda a gente?
- E do que é que isso me serve? Para onde é que é mesmo?
- Para a rua da Bela Vista à Graça.
- Ah. Aí mora o Raúl, carro 33, o meu é o 34. Vive na ali na Rua de Sapadores, o genro também é da praça e vive no nº79 dos Barbadinhos. Chegou a engravidar a Isabel, de Arganil, que também vive aqui na do Sol à Graça, nº72, e que depois casou com o filho do meu patrão, que conduz um Mercedes igual a este, o 40, e que vive em Alvalade ao lado do....
- Chefe, pode parar. Chegámos.
- O Sr. vive ali no 98, no prédio côr-de-rosa.
- O quê? Como é que sabe?
- Já cá o trouxe. Não se lembra?
- O Sr. tem uma grande memória....
Taxista 3
Bairro Alto - Pç de Espanha - Alvalade - Graça
Natural de Alfama
- Isto hoje é muito diferente. Quando comecei nem havia mulheres a sair à noite.
- Já viu a sua sorte. Agora tem duas no banco de trás.
- Sorte tem o senhor. Eu tinha de ir às casas de putas na Praça da Alegria.
(pára na Praça de Espanha)
- Olha ali vive o Eusébio. Grande Eusébio. Vejo-o às vezes aí com cada bebedeira.
- A sério?
- Uff. E o Bento? Quantas vezes é que eu levava o Bento aí a casas de meninas, era putas ao colo e o caralho. Loucura do caralho...
- Olhe que ainda tem uma menina no banco de trás
- E o sr. é do Benfica?
- Claro.
- E também festejou a vitória contra o Leixões?
- Claro. Sempre.
- Então, não é do Benfica. Do Benfica éramos nós, que íamos para o estádio da manhã com as panelas e o vinho e o caralho. Apostávamos se o Benfica ia ganhar por 3 ou 4, não era se ia ganhar. E era contra o Ajax e o Barcelona, e o caralho que o foda. O Leixões e o Marítimo? Essas merdas estavam nas distritais, caralho. Isso é que era o meu Benfica!
- Devia ser um ambiente do caralho
- Opa, aquilo era uma maluquice! Quando era golo, lá no terceiro anel, já dava por mim com uma ou duas malucas em cima de mim, tudo maluco e o caralho. Xiiii...Jesus!Tu nem imaginas, pá.
- Gostava de ter visto.
- O mais maluco era o Vítor Baptista. Era pescador, de Setúbal. Eu estava no estádio quando perdeu o brinco de diamantes contra o Sporting. Foi uma loucura, pá. Podia ter sido melhor que o Eusébio. Meteu-se na droga, foi preso, depois foi coveiro e acabou na merda. Cheguei a ir com o Bento à prisão dar prendas ao Baptista, pá. O Bento a chorar, e o caralho. Você devia escrever um livro sobre o Vítor Batista.
- Deve ser uma boa história. Olhe, chegámos. Como é que se chama?
- Aires Vicente, de Alfama.
- Olhe, também sou Vicente. Tiago.
- És cá dos meus. Vicente e do Benfica. Isto é do caralho. Olha...não te esqueças do Vítor Baptista que era pescador. Nasceu na merda e morreu na merda. Foi do caralho!
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