
Passo os dias embevecido a recolher histórias de desconhecidos, a deliciar-me com os seus passados, sem sequer me lembrar das aventuras esquecidas que desfilam debaixo do meu próprio telhado.
Há umas semanas, o meu avô ia morrendo pela terceira vez. Embolia pulmonar. Pela terceira vez o velho Carrasco rasgou com o seu machado a certidão de óbito, afinou o seu pacemaker e gritou pela vida. Talvez por lhe terem ensinado que não se deve morrer sem avisar. Talvez por ser teimoso e querer contrariar a médica que não dava muito por ele. Talvez por querer lembrar que o velho que passa os dias sentado naquela humilhante poltrona já pôde correr, saltar e amar como eu. Talvez...
Sempre vi o meu avô igual. Farto cabelo branco, barriga proeminente, expressão serena. Quando se zanga com a minha avó grita "Hóstia dum cabrão" ou "Magana do Caralho". Quando se ri fá-lo convictamente, mas sem ruído. Quando lhe mostro um artigo meu, chora. Apesar dos avisos médicos, nunca diz que não a um copo de vinho ou a um gelado de stracciatella.
O avô Carrasco chama-se Victoriano mas só responde pelo apelido. Quando o pai Carrasco preparava a minha execução, o Victoriano metia sempre a cabeça na guilhotina por mim. Um dia ensinou-me a apertar os atacadores na pega do cesto da fruta. É daquelas coisas que nunca nos esquecemos, de quem nos ensinou a fazer o primeiro nó. De quem nos ensinou a abrir nozes nas ombreiras das portas. De quem nos arrancou o primeiro dente de leite com um fio de nylon. Sempre igual, o Carrasco.
Hoje sentei-me em frente à poltrona castradora e senti que o meu avô queria correr, saltar e amar outra vez. Talvez por ter olhado para mim e invejado a minha juventude. Talvez por se ter lembrado de ter um passado. Talvez por ter afinado o pacemaker. E assim, deixei-me embevecer pela história deste conhecido, deliciei-me com o seu passado e fiquei a conhecer as aventuras desconhecidas que brotam daquela poltrona, debaixo do meu telhado;
O avô diz que o bisavô gostava muito de vinho. Veio das trincheiras da I Guerra Mundial e quando chegou à raia alentejana passou a dar tiros no fígado. "Era um bêbedo, um relaxado, diz logo assim!", gritou a minha avó. "Magana", deve ter pensado o Carrasco. Parece que o ancestral Carrasco comprava 1/2 litro de vinho todos os dias. Como não tinha dinheiro para mais, fazia assim: "Logo de manhã, dava um pequeno gole de vinho e restabelecia-a com água. Ao almoço, a mesma coisa. Passava o dia nisto até a garrafa ficar cheia de água sem o mínimo de cor de vinho. Vê lá o que ele gostava daquilo", diz o meu avô, a rir-se sem ruído.
"Ainda moço, estava sentado sozinho à porta de casa quando vi o cão do talhante a passar com uma perna de cabrito na boca. Como não comíamos carne, só papas de milho, comecei a correr atrás dele. Ah cão! Corri duas horas atrás do cão, saímos de Santana de Cambas, corremos pelos montes. O cão não largava o naco e eu não largava o cão. Estava ali sempre a um, dois metros. Ali morria quem se cansasse primeiro. O cabrão tentou esconder-se num buraco, numa conduta de água, mas estava tão cansado, o magano, que bateu com a cabeça na parede. Peguei na perna do cabrito e levei-a para casa. O que era para um cão deu para cinco pessoas jantarem. Nunca mais vi o cão na aldeia". Pudera....havia carnívoros mais poderosos naquela cadeia alimentar.
Um dia, o avô do meu avô decidiu que estava na hora. O pequeno Victoriano tinha de começar a trabalhar. Tinha 13 anos e umas sandálias de corda. "Prepara-te que amanhã vamos fazer uma grande viagem". Andaram 25 quilómetros a pé pelo montado alentejano até Vales Mortos onde o esperavam para ser aprendiz de sapateiro. Saíram de manhã com um cajado, avô e neto, chegaram de noite. Ninharias para quem ia a pé uma vez por semana a Mértola buscar restos de cereais a uma fábrica. Os Carrascos eram daqueles sem-terra, sem-gado, sem-nome. Viviam conformados porque ouviam os tiros da Guerra Civil Espanhola do outro lado do Guadiana e sabiam que havia gente com menos do que eles.
Foi em Vales Mortos que o Victoriano aprendeu um ofício. Foi em Vales Mortos que o Victoriano conheceu a minha avó. Parece que foi no baile da terra, ao som de "Besame Mucho", que os Vales Mortos ressuscitaram na dança com a Alzira. E dos vales secos desabracharam o trigo e a cevada, o gado mertolengo, o meu pai, eu próprio.
Assim, quando hoje me sentei à mesa, não pude deixar de pensar que não estaria a comer relaxadamente aquele bife se o meu avô não tivesse perseguido o maldito cão do talhante, se não tivesse palminhado mil palmos de terra para aprender a colar solas de sapato, se não soubesse bailar o "Besame Mucho". Talvez tivesse tropeçado e caído se ele não desse aquele nó no cesto da fruta, talvez não soubesse abrir uma noz, talvez ainda tivesse dentes de leite. Talvez...
E ao abandonar a sala, não resisti a lançar um sorriso irónico àquela poltrona ridícula que pensa que pode castrar um homem que anda, salta e ama dentro de mim....